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A Educação Física encontra o autismo

Estive nos EUA para fazer uma conferência na Universidade da Califórnia e aproveitei para um tour para conhecer os serviços em autismo. Uma das coisas de que saí convicto é que, apesar de terem uma excelente rede de serviços, nossas intervenções têm potencial para ensinarmuito ao mundo, pois nosso carinho, beijinhos, enfim, o calor humano brasileiro é muito mais intenso do que a técnica um tanto distante dos estadunidenses.

 

Outro campo em que podemos também contribuir com o mundo é com a Educação Física, que no Brasil é uma profissão regulamentada, com formação universitária muito bem fundamentada e um enorme campo de pesquisa (nos EUA a profissão não existe).

Nos últimos anos temos assistido a profissionais de Educação Física no Brasil se dedicando ao tema das Pessoas com Deficiência, em geral, e da pessoa com autismo, em particular. Pessoas como Daniel Carmo, Rodrigo Brívio, Tiago Toledo, Alexandre Melo, Profa. Dra. Carolina Quedas, Prof. Me. Darlan Santos e muitos outros. Um destaque para dois profissionais, o Prof. Dr. Estélio Dantas, um dos maiores pesquisadores em Educação Física (e fora dela), agora também pesquisando em autismo e o Prof. Dr. Paulo Chereguini (cujas lives no canal podem ser vistas 1ª AQUI, 2ª AQUI e 3ª AQUI) que se dedica extensamente ao tema e criou um modelo de intervenção baseado nas melhores evidências científicas do tema (ver página do Modelo Exerciência AQUI).

A Educação Física tem inúmeras possibilidades de contribuição em uma intervenção em autismo e gostaria de apresentar aqui de maneira bastante sucinta alguns pontos interessantes em que podemos nos beneficiar destes trabalhos.

Intervenção baseada em ABA: incorporando expertises

Primeiro precisamos retomar uma premissa importante. A intervenção com evidência para o autismo é aquela baseada em Análise do Comportamento Aplicada – ABA, ok? É a partir desta informação que podemos construir nosso raciocínio.

A Análise do Comportamento Aplicada – ABA, é uma ciência que estuda o comportamento humano e utiliza os conhecimentos básicos para melhorar a qualidade da vida humana através da mudança do comportamento dos indivíduos, promovendo o ensino de comportamentos que podem ser importantes para a qualidade de vida das pessoas.

A Análise do Comportamento nasceu como parte da Psicologia e a maior parte dos primeiros a atuarem como Analistas do Comportamento, planejando intervenções baseadas em ABA, vinham da Psicologia, o que fez com que o campo ficasse um tanto restrito a esta categoria e que muitas pessoas confundam a natureza da função de Analista do Comportamento com a de Psicólogo.

Na verdade, o Analista do Comportamento pode ser Psicólogo, Fonoaudiólogo, Terapeuta Ocupacional, Psicopedagogo, Pedagogo, entre muitas outras possibilidades, que enriquecem a profissão com estas diversas expertises da formação de origem, que não são alcançadas com a formação específica em Análise do Comportamento.

É claro que dentre estes profissionais e estas expertises de origem está a Educação Física. O conhecimento sobre coisas como anatomia, desempenho motor, força, exercícios físicos, esportes, circuitos, entre muitos outros conhecimentos podem ser de extrema valia em intervenções com pessoas com autismo ou outras condições correlatas, mas no caso do autismo em particular, há inúmeras possibilidades e ganhos com a presença deste profissional.

Objetivos potenciais em uma intervenção com profissionais de Educação Física

Quando entramos na internet e procuramos sobre Educação Física e autismo (assim como em qualquer outra área) é natural que apareçam muitas referências nada científicas, do tipo “tal esporte é bom para pessoas com autismo”. Ora, não é um ou outro esporte que é bom para pessoas no espectro autista, na verdade, esportes são bons para as pessoas em geral, quando praticados de maneira moderada e eventualmente diferentes esportes podem ser favoráveis para pessoas a depender de seus gostos, aptidões e necessidades.

No entanto, dizer que esporte é bom para as pessoas é uma definição muito pobre do que queremos. Na verdade, pessoas com autismo possuem um Transtorno do Neurodesenvolvimento que traz uma série de prejuízos a sua vida e nosso objetivo, naturalmente, é trabalhar com estes prejuízos ajudando o indivíduo a melhorar sua qualidade de vida. No entanto, este desenvolvimento e estes prejuízos não constituem um padrão, mas são de características totalmente individuais, não existindo nenhuma pessoa com autismo que necessita da intervenção exatamente igual à outra.

Dito isto, o que importa não é o esporte, não são os exercícios, mas o desenvolvimento particular de cada indivíduo. É necessário, portanto, uma articulação do planejador Profissional de Educação Física e a avaliação global do indivíduo para responder à seguinte questão: o que pode a Educação Física contribuir com este indivíduo, em particular?

É claro que a resposta será diversa para cada pessoa, mas apontamos aqui algumas possibilidades significativas para que possamos pensar a respeito:

Praxia global: Diversas pesquisas vêm demonstrando que pessoas com o Transtorno do Espectro Autista normalmente possuem também problemas na execução de movimentos motores grossos e finos, com prejuízos na precisão de sua execução e na integração com a comunicação verbal e não  verbal. A Educação Física trabalha com a execução motora, tendo inúmeros recursos para o desenvolvimento de habilidades neste campo. Muitas destas estratégias são desconhecidas de outros profissionais e administrá-las sem este conhecimento pode ser ineficiente, ineficaz ou, ainda pior, prejudicial.

Habilidades Sociais: É parte do diagnóstico de autismo o prejuízo na comunicação social, daí que seja de se esperar que pessoas com autismo tenham dificuldades em fazer e sustentar amizades, fazendo do desenvolvimento das habilidades sociais um objetivo fundamental em qualquer intervenção em Transtorno do Espectro Autista. Vamos lembrar um pouco de nosso tempo de escola, qual era a aula em que os estudantes mais interagiam? Em que havia não só conversa, mas coordenação, interação recíproca de diversas modalidades e tudo isso era incentivado? Na Educação Física, é claro! Seja na inclusão ou em espaços coletivos de interações planejadas por Profissionais de Educação Física, o ambiente é extremamente propício para o desenvolvimento de atividades que visem desenvolver as habilidades sociais. Mas vejam, não estamos falando simplesmente em “fazer a aula” e “deixar as coisas acontecerem”, na verdade, uma intervenção adequada exige uma avaliação do comportamento social do indivíduo (Habilidades Sociais), o planejamento, a implementação, reavaliação e replanejamento permanente.

Jogos de turno, imitação, controle instrucional: Intervenções baseadas em ABA com crianças com Transtorno do Espectro Autista avaliam coisas como a habilidade de realizar jogos de turno (do tipo “agora sou eu – agora você – agora eu…”), fundamental para uma conversação fluente e o bom desenvolvimento de habilidades sociais, também estão entre os alvos a imitação de movimentos grossos, objetos, finos, fonoarticulatórios, em pé e sequência de movimentos, que é a base da maior parte comportamento humano e o seguimento de instruções, desde a mais simples até a mais complexa e de diversos passos, fundamental para todo o processo de escolarização. Quando qualquer uma destas habilidades (ou outras) não está presente, é natural que se estabeleçam programas para ensiná-las. Uma intervenção com Profissionais de Educação Física pode trabalhar todos estes aspectos em diversos contextos, como na inclusão escolar e também em ambientes específicos de Educação Física Especial.

Saúde geral: Para além do autismo, as crianças no espectro são também crianças e que muitas vezes, por problemas na socialização e no desempenho motor, têm menos oportunidades de brincar e praticar esportes com outras crianças no ambiente natural. O planejamento e execução de intervenções com exercícios físicos também contribui para suplementarmos as possibilidades de exercícios físicos destas crianças e com a manutenção e melhoria de sua saúde física, que têm impacto decisivo sobre seu desenvolvimento comportamental.

A formação do profissional

Infelizmente ainda temos dois fenômenos muito recorrentes na formação de profissionais de dicados à inclusão no Brasil:

  1. O conteúdo quase não está presente nas graduações, normalmente em uma só disciplina, por um único semestre e muitas vezes de menor carga horária. Este conteúdo é bastante geral, de “inclusão”, dedicada à todas as deficiências e necessidades educacionais especiais;
  2. O referencial utilizado na disciplina é quase sempre de natureza discursiva, somente descrevendo “a importância da inclusão”, falando da “importância do reconhecimento do outro e da diversidade”, e fazendo apologia a Declaração de Salamanca, às vezes com a descrição das deficiências (que em nada resolve o problema da intervenção) e pior ainda, quase sempre de natureza anticientífica, indicando que a mera mudança “atitudinal” inclusionista, resolve por si só o problema da aprendizagem (em outras palavras, tendo um coração bom, a criança naturalmente aprende). Esta perspectiva é tão predominante que é muito difícil encontrar qualquer bibliografia em português com uma visão diferente, mais técnica e científica do ensino a pessoas com deficiências como o autismo.

Assim, o melhor caminho possível é que as graduações se reinventem, com disciplinas maiores, mais alinhadas com a ciência e de natureza mais técnica, mas enquanto isso não ocorre, uma alternativa pertinente é a procura de cursos de formação específica em práticas baseadas em evidências na Educação Física aplicada ao autismo e outra possibilidade é o estudo direto da Análise do Comportamento Aplicada – ABA aplicada ao autismo e à Deficiência Intelectual (uma opção AQUI), aplicando os conceitos e processos nas intervenções em Educação Física.

Minha experiência

Já lecionei no curso de Educação Física e orientei trabalhos na área. Em um destes trabalhos, um acadêmico observou 15 aulas de Educação Física da escola considerada a melhor de toda a cidade no tema da inclusão escolar (uma cidade rica) em uma sala onde havia 2 estudantes com autismo.

Posso resumir assim o achado:

Aula 1, o Prof. fez isso, isso e aquilo e os meninos ficaram sentados com suas mediadoras.

Aula 2, o Prof. fez isso, isso e aquilo e os meninos ficaram sentados com suas mediadoras.

Aula 3, o Prof. fez isso, isso e aquilo e os meninos ficaram sentados com suas mediadoras.

…. até a 15ª aula.

Atenção, estou dizendo que naquela considerada a melhor escola de inclusão, a aula que considero como a mais importante, não passava de sentar e esperar. O chamado deste texto é para rompermos o ciclo deste tipo de exclusão, vamos lá?