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ABA de verdade, a grande questão

 

 

Muito se fala em Método ABA. Podemos encontrar textos, palestras, serviços e muita “troca de dicas” para “aplicar o método ABA para autismo”, isso tantos nos grupos de pais com pessoas com autismo, quanto em espaços reservados somente a profissionais. Ao mesmo tempo que isso ocorre, também temos notícias de pessoas que dizem que “o Método ABA não funciona” para seus filhos, e estas coisas estão diretamente conectadas.

O que acontece é que a Análise do Comportamento é uma ciência, fundamentada em dados muito sólidos, isto quer dizer que seus princípios são inequívocos. Então como pode esta ciência falhar com uma parte das crianças? A questão é que grande parte dos profissionais não a aprende de fato, isto é, ela não é utilizada como ciência, mas como método, isto é, como uma espécie de “receita de bolo” que se pega e se aplica. Mas se todas as crianças são diferentes, como é possível usar um mesmo método com todas elas? Simples, não pode, se você fizer isso é claro que isto falhará com boa parte das crianças.

Sinto dizer que NÃO EXISTE MÉTODO ABA. Ou melhor, existe uma ciência chamada Análise do Comportamento – ABA que é um campo de estudo e pesquisa muito rico e complexo e cujos princípios são a base para a criação de milhares de metodologias eficazes para pessoas com Transtorno do Espectro Autista – TEA, Deficiência Intelectual – DI e outros atrasos e transtornos do neurodesenvolvimento (entre muitas outras áreas como a Educação Universitária, o esporte e a economia). Ocorre que muitas pessoas não compreendem esta ciência ou não se dispõem a estudar o quanto é necessário para realmente aprender a formular intervenções adequadas e aplicam simplesmente um passo-a-passo grosseiro e equivocado sobre ABA.

Então quando recusamos a ideia de “Método ABA”, não é por que a expressão é feia ou desagradável, mas porque utilizar assim esta ciência é condenar uma parte das crianças com autismo ao fracasso nesta intervenção e ainda desacreditá-las da ciência da qual deriva a intervenção com a melhor evidência em autismo.

A verdadeira ciência

A Análise do Comportamento Aplicada é uma ciência, que nós apelidamos com a sigla em inglês – ABA (de Applied Behavior Analysis), e o que quer dizer ser uma ciência? Quer dizer que há princípios bem demonstrados e que podem ser utilizados de diversas formas. No caso da ABA, trata-se da utilização dos princípios verificados experimentalmente na chamada Análise Experimental do Comportamento e fundamentados no Behaviorismo Radical, uma filosofia que fornece as bases epistemológicas (isto é, sobre como o conhecimento pode ser produzido) para a pesquisa.

Vamos dar um exemplo bastante simples sobre como estas esferas se entrelaçam e como a ideia de Método ABA deve ser rigorosamente rejeitada.

O Behaviorismo Radical afirma que os seres humanos são parte da natureza e que, portanto, todos os fenômenos humanos são fenômenos naturais.

A Análise Experimental do Comportamento demonstrou que o comportamento humano é de 3 tipos: respondente, adjuntivo e operante e a grande maioria é operante. Os dados mostram que o comportamento operante pode ser representado como uma relação entre um certo ambiente (Sd), a ação do sujeito (R) e a consequência reforçadora (C), isto é, todo comportamento operante, para continuar existindo, precisa de uma consequência no ambiente que o reforce.

A Análise do Comportamento Aplicada, utilizando este conhecimento e desejando ensinar coisas para pessoas com autismo, por exemplo, fornece consequências (como a oportunidade de brincar com o celular ou com um boneco) aos comportamentos em que estas pessoas demonstram certas habilidades importantes para sua qualidade de vida. Por exemplo, se estamos ensinando uma pessoa a falar, podemos organizar as coisas (arranjar contingências, como chamamos) para que sempre que ele fale, tenha acesso a um certo boneco que adora, para que ele fale cada vez mais até um nível funcional para sua vida.

Mas isto não é nada fácil, trata-se de um processo com grandes desafios. Quando começamos o trabalho e depois disso com muita frequência, fazemos aquilo que é chamado de “avaliação de preferência”, em que descobrimos o que a criança “gosta”, o que ela escolhe primeiramente, dentre coisas preferidas e supomos que estas preferências são reforçadores, isto é, que liberadas após certos comportamentos, farão estes comportamentos aumentarem de frequência. E isto normalmente é acontece, mas não sempre, aí entra a ciência.

Alguém que conheça algo que chama de “Método ABA” pode ter simplesmente aprendido a fazer a avaliação de preferência e pode ter aprendido a disponibilizar os itens preferidos após os comportamentos adequados, mas não saberá avaliar adequadamente se estes itens estão, ou não, funcionando como reforçadores. Se os itens preferidos não estiverem funcionando (o que acontece, eventualmente) não poderá tomar boa decisão sobre como resolver este problema a não ser que tenha uma boa base científica.

Diante de uma situação como esta, alguém preparado em “Método ABA” vai tentar tempos a fio, inutilmente, ensinar algo sem reforçadores, talvez esta criança perdesse meses ou, a depender do contexto, anos. Ao fim de muito tempo, provavelmente o “profissional” iria se dirigir à família (talvez após algum questionamento) e dizer que o problema era que “é que Fulano não aprende” talvez com explicações como “deve ser questão biológica”, “É que a Deficiência Intelectual dele é muito forte” ou outras desculpas semelhantes.

Outra possibilidade ainda (e ainda pior) é dizer que “com Fulano o reforço não funciona”, com variações como “já reforcei o comportamento dele, mas não aumentou”. Estas e as explicações anteriores não fazem sentido, porque:

  1. Dizer que o reforço não aumentou um comportamento é um paradoxo, uma expressão contraditória em si pois só chamamos de “reforço” se aumentou a probabilidade de um comportamento, do contrário, não pode ser chamado de “reforço”;
  2. Jogam a culpa da falta de profissionalismo e estudo na criança;
  3. Desmotivam os pais e a própria criança em relação a suas capacidades;
  4. Fazem com que a criança perca anos de trabalho com séria diminuição de sua plasticidade cerebral e consequente diminuição da eficácia e eficiência das intervenções;
  5. Esta mãe passa a fazer parte do grupo que diz que “ABA não funciona com meu filho”;
  6. Desconsideram completamente o princípio científico, muito bem demonstrado, de que TODOS APRENDEM.

No exemplo citado, a “confusão” entre Método ABA e a Ciência ABA é causa da perda de anos de desenvolvimento potencial de uma criança com autismo. Esta perda não é recuperável, já que a plasticidade cerebral sempre diminui e temos uma pessoa seriamente prejudicada.

Atuando como cientista

Alguém que conheça realmente a ciência da Análise do Comportamento Aplicada trabalhará provavelmente com o mesmo processo de avaliação de preferências, no entanto, entenderá qual é sua função, isto é, descobrir que itens são potencialmente reforçadores. Quando utilizasse estes itens e eles não funcionassem, uma pessoa realmente preparada perceberia isto muito rapidamente  e jamais diria coisas como que “é que Fulano não aprende” talvez com explicações como “deve ser questão biológica”, “É que a Deficiência Intelectual dele é muito forte”, pelo simples fato que uma pessoa que conheça as evidências científicas sabe que TODOS APRENDEM.

Se não podemos dizer que aquela criança não aprende e nem que “reforço não funciona com ela”, o que podemos fazer? Existem muitos caminhos a seguir, em uma avaliação que se paute por princípios científicos, tudo dependo do indivíduo e suas necessidades. Mas elencamos alguns fatores fundamentais:

  1. Discutir o caso com seu supervisor;
  2. Avaliar se há outros fatores dificultando o comportamento;
  3. Realizar outras avaliações de reforçadores por meio de observação e baseadas no Princípio de Premack (por exemplo);
  4. Utilizar potenciais reforçadores de variadas modalidades (sensorial, social, tangível, entre outras);
  5. Considerar estratégias de Behavior Momentum;
  6. Por fim, um Analista do Comportamento ou encontraria uma forma de ensino eficaz ou abandonaria o caso por não conseguir encontrar uma solução técnica adequada (e sim, isso pode acontecer).

Procurando bons profissionais

Para que as crianças com Transtorno do Espectro Autista – TEA, Deficiência Intelectual – DI e outros atrasos e transtornos do neurodesenvolvimento possam ter garantido seu direito a uma intervenção adequada, aproveitando ao máximo a produção científica sobre o tema e sempre ajustado a suas necessidades individuais, é fundamental que procuremos sempre profissionais de boa formação e experiência. Podemos procurar por itens como experiência profissional, formação em Especialização em ABA, Mestrado ou Doutorado com pesquisas utilizando a Análise do Comportamento Aplicada – ABA, pesquisas publicadas abordando a Análise do Comportamento Aplicada, supervisão de qualidade (isto é, atendendo a estes mesmos critérios) e um esforço permanente de atualização e aprofundamento.

Apesar da força destes critérios de qualidade, é verdade também que é possível que alguém seja extremamente preparado mas ainda assim trabalhe de maneira equivocada ou relapsa. Daí a importância de uma das dimensões da ABA, a TRANSPARÊNCIA, que faz com que pais de pessoas atendidas possam conhecer e participar de todos os processos de intervenção e quanto mais esses pais se empoderam também do conhecimento científico, tanto mais podem avaliar e proteger seus filhos contra todas as condutas antiprofissionais. Acredite, uma boa defesa contra o tal Método ABA pode salvar muitos anos de intervenção mal feita.

 

Autor: Lucelmo Lacerda é Doutor em Educação pela PUC-SP, Pesquisador de Pós-Doutoramento na UFSCar, Psicopedagogo e autor do livro “Transtorno do Espectro Autista: uma brevíssima introdução”